A pescaria anual
no Pantanal era sagrada. Fazia parte de um ritual de passagem pelo que todos os
candidatos a genro tinham de enfrentar, mais cedo ou mais tarde.
E lá fui eu, em um
ano do qual não me lembro mais “os número”, pescar pacus e pintados no rio Taquari,
com meu futuro sogro e seus companheiros.
Na fazenda onde
ficava o acampamento-base da turma, havia uma cachorrinha muito esperta chamada
Pixuleta. Era daquelas
simpáticas vira-latas sempre dispostas a brincar com quem dá atenção a elas.
Esta gostava mesmo era de correr para pegar qualquer coisa que a gente atirasse
para ela. Podíamos arremessar bem longe, no meio da mata, na beira do rio,
qualquer lugar – e lá ia ela, veloz, buscar o que ela imaginava ser algo para
comer.
Nada de estranho
nisso – mas ela era uma cachorrinha diferente e especial por duas razões.
Primeiro, ela não comia qualquer coisa, não. Nada de vegetais, frutas ou
similares. Gostava era de carne, ossos e pão, o resto ela rejeitava. A segunda
característica era mais complicada: quando ela descobria que o que haviam
atirado para ela ir buscar não era comida (ou algo que ela considerasse como tal),
ela voltava sorrateiramente e mordia a perna de quem a tinha enganado. E doía!
Em um dos domingos
pacatos e quentes daquelas paragens, meu sogro e companheiros ofereceram um
jantar para o fazendeiro e sua família, como sempre faziam ao final da pescaria,
como agradecimento pelo empréstimo do local para o acampamento.
Tinha um belo
dourado, assado na brasa, em folha de bananeira e recheado com a inigualável
farofa que fazia o meu sogro.
Em torno da mesa,
sob a cobertura de folhas de palmeira, sentaram-se o fazendeiro - sempre um
tanto formal, como legítimo pantaneiro, na presença de sua família - sua
esposa, sogra, irmã, cunhada e filhas. E toda a turma da pescaria, é claro.
Eu estava sentado ao lado do meu sogro, me sentindo um pouco entediado com a conversa sobre bois e porcos “alongados” (fugidos, selvagens) e me distraía jogando pedacinhos de pão para a Pixuleta. Num certo momento, eu, sem pensar, joguei uma goiaba bichada para trás e lá foi a Pixuleta buscar o que parecia ser um apetitoso bocado.
Eu estava sentado ao lado do meu sogro, me sentindo um pouco entediado com a conversa sobre bois e porcos “alongados” (fugidos, selvagens) e me distraía jogando pedacinhos de pão para a Pixuleta. Num certo momento, eu, sem pensar, joguei uma goiaba bichada para trás e lá foi a Pixuleta buscar o que parecia ser um apetitoso bocado.
Logo ela viu que
não era e, ofendida pela minha tentativa de enganá-la (no seu modo de ver), foi
voltando de mansinho para debaixo da mesa, pronta para se vingar. Eu, que não
sou bobo, fui logo tirando meus pés do alcance da ferinha.
Ela nem se
incomodou. Com tantas pernas por ali ela não iria sair sem sua retaliação:
virou a cabeça e pregou os dentes na barra da calça do meu sogro. E nada de
soltar, mesmo após várias tentativas silenciosas do atacado, que sacudia a
perna com força para desgrudar aquele carrapicho, sem sucesso.
A uma certa altura
- acho que quando os dentes da danadinha já estavam ultrapassando o pano e
chegando na pele da perna – meu sogro, perdendo a paciência e interrompendo
o dono da fazenda, para horror das carolas pantaneiras, bramiu:
- - Sai,
Pixoxota! Sai, Pixoxota!
Todos congelaram em
seus lugares. A mais espantada era a dona da casa, que estava de pé bem naquele
momento e ficou parada com o prato na mão, meio atordoada.
Eu, tentado ajudar
meu sogro a sair daquela situação super embaraçosa, soprei, bem baixinho:
- Shhhhh!!! O nome
dela não é Pixoxota, não!...
E ele - antes
que eu pudesse terminar o alerta - soltou, bem na direção da matriarca, com seu
mais enfático tom de patrão:
-
- Larga,
Pixexeca! Pixexeca, larga...
Eita causo dos "baos"!!!! kkkkk isso parece conto de mineiro!!
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