Friday, May 4, 2012

O voo do Manolo


Seu Mikrute morava na chácara vizinha à do meu sogro, o Nelson Galvão de saudosa memória. Os dois, polonês e português, agricultor e empresário, católico e comunista, costumavam reunir-se para tomar umas e outras no galpão da churrasqueira do seu Nelson e jogar uns minutinhos de conversa fora.

Havia entre eles uma semelhança que era maior do que suas diferenças: ambos mandavam bem, mas sempre sem maiores consequências, pois assim que  percebiam que tinham passado da conta se acomodavam cada um em um banco e puxavam um ronco restaurador.

A tia Ude, que goatava de ir passar o domingo lá na chácara, tinha uma cadelinha poodle que era deixada em casa nessas ocasiões, mas sempre que podia a tia levava o seu papagaio de estimação, o Manolo.

Esse foi o papagaio mais estranho que eu já vi. Bicava todo mundo, falava de tudo – e latia!  Latia como a poodle com quem convivia, tendo aprendido a repetir os latidos que sempre ouvia, do mesmo jeito que repetia palavras ditas para ele.

Pois bem. Em um belo domingo, seu Mikrute e seu Galvão estavam tomando umas amarelinhas de Morretes, depois do almoço, lá no velho galpão. O silêncio indicava que já tinham conversado o que era para ser conversado e estavam na fase de curtir a quietude do campo e a lisura da cachacinha.

Na varanda da casa, um acidente acontece. Alguém derruba a gaiola do Manolo e o esperto papagaio aproveita e foge. Sai voando em direção ao pomar que ficava mais adiante do galpão onde modorrava a dupla de patriarcas.

Ao passar voando por cima do galpão o papagaio resolve fazer uma de suas imitações favoritas, latindo como a Pepita.

Ao olhar para cima e ver, sem entender, um bicho verde e alado, latindo feito um cachorrinho, seu Mikrute coloca seu copo na mesa de mansinho e diz para o meu sogro, num tom entristecido mas resoluto:

 - Iiiii, seu Nelson... Acho que tá na hora da gente parar de beber....

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