Seu Mikrute morava na chácara vizinha à do meu sogro, o Nelson Galvão de
saudosa memória. Os dois, polonês e português, agricultor e empresário,
católico e comunista, costumavam reunir-se para tomar umas e outras no galpão
da churrasqueira do seu Nelson e jogar uns minutinhos de conversa fora.
Havia entre eles uma semelhança que era maior do que suas diferenças:
ambos mandavam bem, mas sempre sem maiores consequências, pois assim que percebiam que tinham passado da conta
se acomodavam cada um em um banco e puxavam um ronco restaurador.
A tia Ude, que goatava de ir passar o domingo lá na chácara, tinha uma
cadelinha poodle que era deixada em casa nessas ocasiões, mas
sempre que podia a tia levava o seu
papagaio de estimação, o Manolo.
Esse foi o papagaio mais estranho que eu já vi. Bicava todo mundo, falava de tudo – e
latia! Latia como a poodle com
quem convivia, tendo aprendido a repetir os latidos que sempre ouvia, do mesmo
jeito que repetia palavras ditas para ele.
Pois bem. Em um belo domingo, seu Mikrute e seu Galvão estavam tomando
umas amarelinhas de Morretes, depois do almoço, lá no
velho galpão. O silêncio indicava que já tinham conversado o que era para
ser conversado e estavam na fase de curtir a quietude do campo e a lisura da
cachacinha.
Na varanda da casa, um acidente acontece. Alguém derruba a gaiola do Manolo
e o esperto papagaio aproveita e foge. Sai voando em direção ao pomar que
ficava mais adiante do galpão onde modorrava a dupla de patriarcas.
Ao passar voando por cima do galpão o papagaio resolve fazer uma de suas
imitações favoritas, latindo como a Pepita.
Ao olhar para cima e ver, sem entender, um bicho verde e alado, latindo
feito um cachorrinho, seu Mikrute coloca seu copo na mesa de mansinho e diz
para o meu sogro, num tom entristecido mas resoluto:
- Iiiii, seu Nelson... Acho
que tá na hora da gente parar de beber....
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