Wednesday, June 20, 2012

Um Nome Meio Complicado...


A pescaria anual no Pantanal era sagrada. Fazia parte de um ritual de passagem pelo que todos os candidatos a genro tinham de enfrentar, mais cedo ou mais tarde.


E lá fui eu, em um ano do qual não me lembro mais “os número”, pescar pacus e pintados no rio Taquari, com meu futuro sogro e seus companheiros.


Na fazenda onde ficava o acampamento-base da turma, havia uma cachorrinha muito esperta chamada Pixuleta. Era daquelas simpáticas vira-latas sempre dispostas a brincar com quem dá atenção a elas. Esta gostava mesmo era de correr para pegar qualquer coisa que a gente atirasse para ela. Podíamos arremessar bem longe, no meio da mata, na beira do rio, qualquer lugar – e lá ia ela, veloz, buscar o que ela imaginava ser algo para comer.


Nada de estranho nisso – mas ela era uma cachorrinha diferente e especial por duas razões. Primeiro, ela não comia qualquer coisa, não. Nada de vegetais, frutas ou similares. Gostava era de carne, ossos e pão, o resto ela rejeitava. A segunda característica era mais complicada: quando ela descobria que o que haviam atirado para ela ir buscar não era comida (ou algo que ela considerasse como tal), ela voltava sorrateiramente e mordia a perna de quem a tinha enganado. E doía!


Em um dos domingos pacatos e quentes daquelas paragens, meu sogro e companheiros ofereceram um jantar para o fazendeiro e sua família, como sempre faziam ao final da pescaria, como agradecimento pelo empréstimo do local para o acampamento.

Tinha um belo dourado, assado na brasa, em folha de bananeira e recheado com a inigualável farofa que fazia o meu sogro.


Em torno da mesa, sob a cobertura de folhas de palmeira, sentaram-se o fazendeiro - sempre um tanto formal, como legítimo pantaneiro, na presença de sua família - sua esposa, sogra, irmã, cunhada e filhas. E toda a turma da pescaria, é claro.


Eu estava sentado ao lado do meu sogro, me sentindo um pouco entediado com a conversa sobre bois e porcos “alongados” (fugidos, selvagens) e me distraía jogando pedacinhos de pão para a Pixuleta. Num certo momento, eu, sem pensar, joguei uma goiaba bichada para trás e lá foi a Pixuleta buscar o que parecia ser um apetitoso bocado.


Logo ela viu que não era e, ofendida pela minha tentativa de enganá-la (no seu modo de ver), foi voltando de mansinho para debaixo da mesa, pronta para se vingar. Eu, que não sou bobo, fui logo tirando meus pés do alcance da ferinha.


Ela nem se incomodou. Com tantas pernas por ali ela não iria sair sem sua retaliação: virou a cabeça e pregou os dentes na barra da calça do meu sogro. E nada de soltar, mesmo após várias tentativas silenciosas do atacado, que sacudia a perna com força para desgrudar aquele carrapicho, sem sucesso.


A uma certa altura - acho que quando os dentes da danadinha já estavam ultrapassando o pano e chegando na pele da perna – meu sogro, perdendo a paciência e interrompendo o dono da fazenda, para horror das carolas pantaneiras, bramiu:


-      - Sai, Pixoxota! Sai, Pixoxota!


Todos congelaram em seus lugares. A mais espantada era a dona da casa, que estava de pé bem naquele momento e ficou parada com o prato na mão, meio atordoada.


Eu, tentado ajudar meu sogro a sair daquela situação super embaraçosa, soprei, bem baixinho:


- Shhhhh!!! O nome dela não é Pixoxota, não!...


E ele - antes que eu pudesse terminar o alerta - soltou, bem na direção da matriarca, com seu mais enfático tom de patrão:


-       - Larga, Pixexeca! Pixexeca, larga...

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